Jung no Supermercado

Pequenas interrupções no quotidiano que nos convidam a reparar naquilo que, por hábito, nos passa despercebido.

A psique também anda por aí.

Novas situações aparecem sempre. A psique, felizmente, não parece ter falta de material.

Se chegaste aqui porque encontraste um papel, um cartão, um marcador ou qualquer outra coisa que não estavas propriamente à procura, chegaste ao sítio certo.
Podes chamar-lhe acaso.
Jung provavelmente faria mais umas perguntas antes de chegar a essa conclusão.

O QUE É ISTO?

Quando se fala em Psicologia Analítica, é fácil imaginar sonhos estranhos, símbolos misteriosos, livros bastante grossos e um consultório onde alguém pergunta pela nossa infância.
E sim. Às vezes também há disso.
Mas a vida psíquica tem o hábito pouco conveniente de não ficar à espera da hora da sessão.
Aparece na fila do supermercado.
Numa mensagem que ficou sem resposta.
Naquela pessoa que nos irrita por razões perfeitamente justificáveis. Todas as dezassete.
No “não faz mal” quando, na verdade, fazia um bocadinho.
Ou na terceira vez que fazemos exatamente aquilo que jurámos que não voltaríamos a fazer.
Jung no Supermercado nasceu daí.
Da ideia de levar algumas perguntas da Psicologia Analítica para os lugares mais banais da vida quotidiana.
Um supermercado. Um café. Um provador. Um elevador. Um banco de jardim.
Porque nem tudo o que se passa cá dentro tem a delicadeza de acontecer num lugar apropriado.

TALVEZ TE RECONHEÇAS AQUI

Mudaste para a fila que parecia andar mais depressa.
Parou. Claro que parou.

Disseste “não faz mal”. Fazia.

Alguém não respondeu à tua mensagem.
Entretanto, a tua cabeça já escreveu o argumento, escolheu o elenco e provavelmente está a trabalhar na sequela.

Há uma pessoa que te irrita profundamente.
Curiosamente, pensas bastante nela.

Prometeste a ti próprio que desta vez seria diferente.
Não foi. Mas a promessa era ótima.

Disseste “sim” enquanto alguma coisa dentro de ti dizia claramente “não”.
E depois ficaste ligeiramente irritado com toda a gente.

Sabes perfeitamente que aquele padrão não te faz bem.
Isso nunca te impediu de o repetir.

Entraste sozinho num provador.
A tua mãe, uma antiga relação e uma senhora que fez um comentário em 1997 entraram contigo.

Estás cansado.
Mas continuas a organizar a vida como se fosses uma pequena empresa com vários departamentos.

Há coisas que já sabes sobre ti.
O problema é que algumas delas, depois de sabidas, começam a exigir coisas.
E isso já é bastante menos cómodo.

E O QUE É QUE JUNG TEM A VER COM ISTO?

Mais do que seria de esperar numa ida ao supermercado.
Para a Psicologia Analítica, aquilo que nos acontece no quotidiano pode dizer bastante sobre aquilo que se passa dentro de nós.
As reações que parecem grandes demais para aquilo que aconteceu.
As pessoas em quem vemos qualquer coisa que nos fascina — ou que não suportamos.
As versões de nós que levamos para o trabalho, para a família ou para uma relação.
As situações que mudam de cenário, de pessoas e até de década, mas acabam estranhamente no mesmo sítio.
Jung chamou a algumas destas coisas complexos, projeções, persona, sombra.
Os nomes ajudam.
Mas antes dos nomes vem uma coisa muito mais simples:
reparar.
Reparar no que se repete.
No que nos toca demasiado.
No que evitamos.
No que fazemos automaticamente.
Naquilo que dizemos que não importa enquanto pensamos nisso há três dias.
Não porque tudo esconda uma revelação extraordinária.
Às vezes estamos apenas numa fila que não anda.
Mas, outras vezes, há qualquer coisa ali que vale a pena olhar uma segunda vez.

UMA PERGUNTA PARA LEVAR CONTIGO

O que aconteceu hoje que quase não mereceu a tua atenção?
Talvez não seja nada.
Mas já que chegaste até aqui, podes reparar.

Jung no Supermercado
Psicologia Analítica no quotidiano.

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